Essa frase anda ecoando dentro de mim...
Tudo começou com essa música do Gonzaguinha. Ela me levou pra lugares de mim que há muito eu não freqüentava, que andavam meio esquecidos por conta das várias coisas que tem acontecido na minha vida. Me fez pensar sobre a temporalidade das relações de hoje e sobre como a transitoriedade dos encontros pode nos tornar homens e mulheres transitórios também.
Zygmunt Bawman, um importante sociólogo polonês da atualidade propõe a observação de uma fragilidade crescente nas relações humanas – o chamado amor líquido criado dentro de uma modernidade líquida, em que as relações se estabelecem com extrema fluidez, que se movem e escorrem sem muitos obstáculos, em constante movimento.
A rapidez da troca de informações e as respostas imediatas que esse intercâmbio oferece às decisões diárias são evidências compartilhadas por todos os que estão experimentando o mundo atual. E isto inclui principalmente o modo como lidamos com nossas relações. Nunca houve tanta liberdade na escolha de parceiros, nem tanta variedade de modelos de relacionamentos, e, no entanto, nunca os casais, amigos, familiares se sentiram tão ansiosos e prontos para rever, ou reverter o rumo de suas relações, de seus sentimentos.
Estamos protagonizando o tempo do descartável e isso nos sugere que nos sintamos também assim. Relações liquidas geram sentimentos líquidos, pessoas líquidas...
Talvez toda essa explicação de Bawman sobre o mundo atual nos obrigue a pensar sobre a inquietante frase de Gonzaguinha, que deposita nos encontros humanos uma beleza por vezes pouco percebida por nós... Ela fala da riqueza que nos faz ser humanos! Fala do lirismo dos encontros, da grande experiência que é conviver, ter a chance de dividir a vida, os sonhos, as dores, os momentos com o outro.
Fico pensando sobre o valor do encontro que nos fala Gonzaguinha. Cada pessoa que passa por nós deixa um pouco de si e leva uma parte de nós. Cada olhar, cada palavra pode representar um começo ou um fim, pode nos acolher ou expulsar da vida de alguém.
Quantas pessoas passaram pelos meus olhos hoje? Como olhei pra elas? O que eu tenho deixado na vida das pessoas que passam por mim? O que delas fica em mim? Talvez se a gente se questionasse sempre sobre de que forma estamos permanecendo na vida do outro, as dores pudessem ser menores e as feridas menos dolorosas.
Cuidemos para que possamos sempre criar encontros que nos possibilitem descobrir o essencial que há em nós. É muito bonito percebermos que, na oportunidade de encontrar o outro, também encontramos um pouquinho daquilo que somos. Atravessar para o outro lado de si é um jeito bonito e diferente de ver quem está do lado de fora de nós.
Cuidemos para que as pessoas não se tornem apenas objeto de nossa satisfação. Saibamos elevar o outro ao lugar do sagrado. Numa época em que tudo é temporário, lutemos por relações que permaneçam em nós, para que possamos olhar para o mundo e ver que nele há a nossa essência, que em tudo que fazemos há um pouco do que somos. Para que ao olhar o outro eu possa ver o que há de meu nele...
Difícil? Pode ser... Mas eu não desisto de tentar...

