segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Ser eu mesma é um desafio...

         Normalmente eu não sei dizer muito, só sei sentir. Há dias em que as palavras não são capazes de traduzir o sentimento. E por isso a solidão se instaura. Ela acontece quando qualquer palavra torna-se pequena para expressar a sensação. Então eu me calo... e choro! Mas também há dias em que preciso torcer-me, espremer-me, para retirar de mim um pouco do que sinto para não afogar meus pensamentos no mar dos sentimentos que não sabem ser ditos. Sou uma pessoa dos sentidos, mas especialmente hoje preciso me esconder (ou revelar) nessas palavras.
Ando pensando sobre essa história de sentir-se especial. Tudo por conta de uma frase que não me deixa... “Se quiser entrar na minha vida, tira a sandália dos pés, pois o lugar em que você está entrando é sagrado”. Essa bela frase só poderia ser do meu querido padre Fabio de Melo, que com sua sensibilidade me tira do lugar comum em que me escondo e me leva a lugares de mim mesma que nem eu reconheço.
Acredito totalmente nessa tal sacralidade que envolve cada um de nós, humanos com virtudes e limites. Acredito que uma pessoa é muito mais que um efeito que se possa notar, ela é a mistura de muitas causas às vezes desconhecidas, mais que pela força da curiosidade da aproximação, a gente pode com carinho desvendar. Cada pessoa é mistério que merece ser preservado. Por isso o olhar superficial sobre o outro pode machucar.
Olhar o outro na superficialidade é uma das piores agressões que podemos cometer. Perceber que o outro nos olhou com pressa demais, que não teve tempo, sensibilidade, maturidade para nos buscar, nos desencobrir, é coisa que fere demais a gente. Dói sentir-se como qualquer um, ou como ninguém. Não sei se você já passou por isso. Eu já... Tantas e tantas vezes meu coração foi tomado pela dor de não saber quem eu sou por conta de um olhar mal lançado, de uma palavra mal dita, de um gesto mal feito.
Não posso me esgotar no olhar do outro. Talvez esteja aí a minha dor. Olhar-me sempre através do que o outro pensa, faz ou fala.  O olhar do outro muitas vezes me amedronta, me faz perder-me de mim... Reconhecer-me especial, saber-me como alguém que tem defeitos e fragilidades, e mesmo assim tem a capacidade de aguçar o olhar do outro, curioso por desvendar-me.
O olhar apressado anula todas as possibilidades de experimentar o que no outro está mais escondido. Lugares distantes do coração que só podem ser encontrados pela persistência do olhar que contempla. Contemplar é parar num lugar da onde não se consegue sair. É ficar, estabelecer vínculo, criar afetos... Mas aonde está essa tal sacralidade? E porque tantas vezes ela não parece fazer sentido pra mim quando pensada com relação a mim mesma. Há uma sacralidade em mim que muitas vezes não enxergo, não vejo. Talvez falte para mim um olhar devagar sobre mim . Ando me sentido temporária demais...
O que é meu e em mim está escondido? O que me faz ser eu?  Quero descobrir o que ainda não sei sobre mim e ainda sim optar por estar comigo. Porque, como nos diz padre Fabio, “amar é conhecer os defeitos e mesmo assim não saber viver sem”. Quero dar uma trégua a mim mesma. Preciso reconhecer meus limites e mesmo assim não querer viver sem mim! Ser eu mesma é um desafio...


2 comentários:

  1. ser voce mesma e um exercicio de delicadeza!

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  2. Nossa, digitei no google as palavras, "O desafio de ser eu mesmo" e me apareceu seu blog, amei e muito mais o que acabei de ler...é lindo como tudo se encaixa e creio que nao so a mim como em muitas pessoas tambem....
    sou grata pelo que li agora, um beijo Cris....

    Se quiser tenho um tb, www.memoriasdeumapoeta.blogspot.com

    beijo

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